Policentricidade e unidade divina

Autor: Steven Dillon
Tradutor: Petter Pablo Hübner

“Uma hénada é uma “unidade” ou um indivíduo absoluto, de modo que tudo acerca dela é absolutamente singular e peculiar a ela mesma. As unidades absolutas podem ser contrastadas com “unidades relativas”* – entendidas aqui como misturas do que é único com o que é comum. Gerar incompreensões a respeito das hénadas pode ser fácil, se priorizada em demasia a sua indivisibilidade. Sendo assim, devemos cogitar uma advertência preliminar, a ser em breve ampliada. Considere o que Edward Butler diz em W & P: “Algo que é apenas indivisível em um sentido atômico não tem o tipo de existência que associamos a um Deus”. (37)
Compreender os Deuses como hénadas é importante, pois permite entender que cada Deus é primário – tanto no sentido de ser a causa e o fundamento último de tudo, que não seja Ele mesmo, quanto no sentido de não derivar seu poder, conhecimento ou bondade de qualquer coisa.
As Hénadas precedem, e assim transcendem, cada categoria de ser, própria das “unidades relativas”. Logo, elas precedem a “relação” – mesmo aquelas entre si. Tal ideia leva a objeções, especialmente escolásticas, visto que essa relação seria entendida como uma relação que precede relações reais. Mas se dará toda relação assim?
Abordar essas preocupações é uma boa maneira de partir de nosso ponto inicial para chegar ao policentrismo. O objetor poderia começar com o que talvez pareça mais óbvio: se os Deuses precedem o fato de estarem relacionados uns com os outros, de que modo Eles sabem uns dos outros? Certamente, eles teriam de saber que eles não são o único Deus! A objeção poderia continuar: ao preceder todas as relações, esse conhecimento talvez não seja essencial para Eles. Então esse conhecimento seria supostamente acidental, adquirido mediante a aprendizagem uns dos outros?
Pode parecer ao objetor que o politeísmo henádico acaba por comprometer a simplicidade divina, ou que termina com uma multidão de pensamentos isolados que se pensam a si mesmos. Mas a objeção é fundamentalmente equivocada: em razão justo de os Deuses precederem todas as relações, não há relação de separação que os mantenha distantes uns dos outros. Cada Deus individual está em todos os Deuses, e todos os Deuses estão em cada Deus individual – porém não no sentido de estarem “contidos”, pois isso também seria uma forma de separação. Portanto, os Deuses não são meramente indivisíveis em um sentido atômico.
E uma vez que não há nenhuma distância entre os Deuses, não há distância epistêmica entre Eles: um Deus conhece a si mesmo da mesma forma que conhece todos os Deuses, embora a partir de sua perspectiva totalmente singular e peculiar.
Como Edward Butler diz em W & P: “Os Deuses são as coisas mais unas, e não porque são todos uma coisa, mas porque um indivíduo absoluto inclui tudo”. (39)
Este tipo de inclusão divina não consiste na ausência de separação, mas na presença da individualidade henádica, que preserva a integridade de cada hénada sem submeter as “unidades absolutas” à lógica de exclusão e separação próprias das “unidades relativas”.
Meus leitores escolásticos podem protestar, alegando que, se não há uma distância epistêmica entre as hénadas, elas então são exatamente a mesma coisa. Porém, eu diria que isso simplesmente pressupõe que a individualidade envolva a diferenciação; o que levanta a questão contra a individualidade henádica, mantendo o que não são unidades perante padrões que só se aplicam às unidades relativas. Os Deuses se conhecem como hénadas e, assim, como perfeitamente individuais. Mas Eles não se conhecem enquanto objetos de pensamento relacionalmente discretos. Podemos dizer – ao modo neoplatônico – que Odin está em Zeus “zeusicamente”, e que Zeus está em Odin “odinicamente”.
É neste “panta-en-pasin” (todas as coisas em cada coisa, de forma única) que se situa a compreensão a respeito dos Deuses (compreensão que decorre do seu entendimento enquanto hénadas), naquilo que afinal a “policentricidade” propriamente consiste, explicando por que os Deuses não derivam de um princípio mais elevado, e nem por este estão unidos.

Aquino e a Equivocidade profunda
Tomás de Aquino nos ensinou que a razão pela qual qualquer coisa singular é esta coisa particular é o fato de ela não poder ser comunicada a muitos. “Sócrates é um homem” pode ser comunicado a muitos, ao passo que aquilo que o torna este homem em particular é somente transmissível a um. Portanto, fosse Sócrates um homem por aquilo que o faz ser este homem em particular – não podendo haver muitos Sócrates –, não poderia existir muitos homens. Agora, isso pertence somente a Deus, pois o próprio Deus é a sua própria natureza, como foi mostrado acima (Q. 3, A. 3). Assim, Deus é Deus, e Ele é este Deus. Portanto, é impossível que muitos Deuses existam. (S.T. I.11.3)
A ideia é basicamente esta: porque “Deus” transcende toda a divisão e composição, Ele não é um sujeito de uma natureza. Ou seja, não há diferença em Deus entre o que o torna “Deus” e o que o torna “Ele”. Não é como se você tivesse essa “divindade” ou natureza divina de um lado e então um indivíduo que possui na natureza por outro lado: não há diferença em Deus entre “quem” e “o quê” ele é. (Cf. STI3.3) Mas, como consequência, não há sentido em falar de “Deuses” diferentes deste particular, pois o que faria com que cada um deles fosse “Deus” também tornaria cada um deles um Deus em particular: a “natureza” e o “individuador” são, na realidade, exatamente a mesma coisa. Comentando o argumento de Tomás de Aquino contra o politeísmo em “Ser e Essência”, Joseph Bobik argumenta: “Seja qual for o número de caminhos que alguém poderia inventar para multiplicar algo, se o que está sendo multiplicado é encontrado entre os membros da pluralidade resultante, ele deve ser tomado em um estado puro ou não misturado, e é por isso que nunca pode ser mais do que um. Todos os outros membros da pluralidade devem ser tomados com uns; do contrário, não serão distinguíveis uns dos outros, ou do que está sendo plurificado.” (Bobik, Joseph. Aquinas On Being And Essence: A Translation and Interpretation. Notre Dame, IN: U of Notre Dame. p. 171).
Esses argumentos parecem ser bastante condenatórios, até que se percebe que aqueles que acreditam em muitas hénadas – sejam politeístas ou trinitarianos – de fato concordam com Tomás de Aquino: não existe uma única coisa, como uma “Deusidade” que se plurifique ou se distribua a muitos indivíduos, pois as hénadas não têm absolutamente nada em comum uma com outra, mas são completamente peculiares em si mesmas; a “Deusidade” simplesmente significa algo diferente para cada hénada. Logo, é verdade que, para cada hénada, o que a torna um “Deus” também a torna “este Deus em particular”, de modo que não faz sentido falar, em seu próprio senso de “Divindade”, de qualquer “Deus” ao lado dele ou dela. Em outras palavras, ao contrário da suposição de Tomás de Aquino, o nome “Deus” é predicado equívoco de cada hénada, ou em sentidos não relacionados (e que esses sentidos devem ser não-relacionados é apoiado somente se consideramos que cada hénada precede até mesmo ser relacionada à outra) como poderia Aquino responder a isso? Bem, ele aponta em Summa Contra Gentiles I.42.12 que: “Se existem dois Deuses, ou o nome de Deus é predicado univocamente ou o é equivocamente.” O problema de atribuir o nome a ambos equivocamente é que “nada impede qualquer coisa dada de ser equivocamente nomeada por qualquer nome dado, contanto que admitir o uso daqueles que expressam o nome.” A força deste tipo de demissão é sucintamente descrita por Hugh Ripelin de Strasburg, um contemporâneo de Tomás ‘: “A conclusão evidente é que só pode haver um Deus. Se houvesse muitos Deuses, eles seriam chamados por esse nome, quer equivocamente, quer univocamente. Se eles são chamados Deuses de forma equivocada, uma discussão adicional é infrutífera; nada impede que outros povos apliquem o nome “deus” ao que chamamos de pedra… “(Compendium Theologicae Veritatis I.15).
O que há de errado com o equívoco? Bem, nada, contanto que haja alguma maneira de esclarecer o que queremos dizer. Porém, a ideia é que não há nenhuma maneira de fazer isso. Ao refletir a respeito do que essa carga equivale, vamos ver desdobrar uma objeção poderosa, embora sem êxito, à crença em muitas hénadas. E, enfrentando essa objeção, veremos a força e a beleza da policentricidade. Portanto, a ideia aqui é que, se tudo acerca de cada hénada for totalmente seu, então as hénadas não são sequer semelhantes entre si. Mas se as hénadas não são nem mesmo semelhantes entre si, então não podemos nem conceber mais do que uma hénada de uma só vez, visto que não há por que conceitualmente agrupá-las, nenhum traço comum a invocar, nenhuma analogia para desenhar, que iria refletir como elas realmente são. Nós nos equivocamos cada vez que pensamos ou falamos a respeito de mais de uma hénada, de modo que nunca haveria um pensamento ou palavra que poderia ser significativamente aplicada a mais de uma hénada. Todo argumento para várias hénadas seria formalmente inválido por meio da equivocidade; toda conversa de “politeísmo” ou algo parecido seria literalmente besteira. Teríamos que remover todos os termos, construções e proposições gramaticalmente plurais do nosso domínio do discurso teológico – o que, por mais difícil que seja para conceber, resultaria em uma forma radical de monoteísmo! Isto é o que eu chamei de “equívoca profunda”, visto que, pela acusação, seria equívoco todo o caminho para baixo, sem nunca chegar a um sentido significativo ou conteúdo que poderia ser aplicado a mais de um hénada de uma vez. Obviamente, se esta objeção fosse sadia, seria a morte para a crença em muitas hénadas. No entanto, a objeção não leva em conta algo crucial para a crença em muitas hénadas, algo que não parecia ser conhecido no momento em que essas objeções foram formuladas. Discuti isto no último post, e pode ser chamado de doutrina da inseparabilidade divina: porque as hénadas precedem todas as relações, elas precedem a relação de separação. Como tal, aqueles que acreditam em muitas hénadas pode novamente encontrar-se concordando com os escolásticos.
Se referências plurais às hénadas, seja no pensamento ou na palavra, fossem referências a objetos separados e distintos, então o mesmo pensamento ou termo seria aplicado a coisas completamente não relacionadas, e uma pluralidade de hénadas seria literalmente inconcebível. Contudo, não há nenhuma “distância” de qualquer tipo entre as hénadas. Portanto, nossas referências plurais às hénadas não são referências a objetos separados e distintos; não há equívoco ocorrendo.
Aquino nos ensina que “[podemos] falar de coisas simples apenas como se elas fossem como as coisas compostas das quais derivamos nosso conhecimento”. (S.T. I.3.3) Assim, quando pensamos ou falamos de mais de uma hénada, o fazemos apenas como se elas fossem análogas às coisas compostas de que derivamos nosso conhecimento de multiplicidade. Mas estas são apenas plurificadas de formas que são repugnantes às coisas simples. Como tal, quando nossas referências ao Divino são plurais, elas devem ser purificadas das noções e suposições próprias da multiplicidade de coisas compostas. E mediante essa purificação, a coerência e a necessidade da pluralidade no nosso domínio do discurso teológico permanecerão imaculadas”.

*N.T: Traduzi o termo “units” por “unidades absolutas” e “unities” como “unidades relativas” para conservar o sentido dado pelo autor, sem ter a necessidade de forjar algum neologismo.

Bônus:
Alguns comentários selecionados do Autor.

“Os neoplatônicos argumentaram que toda a realidade emana do Bem – que é uma maneira de falar sobre qualquer Deus enquanto finalidade última, e não é, em si mesma, uma hipostatização. Essa emanação, ou “procissão do ser”, “precisa continuar até que a potência que sai do Bem se torne completamente vazia e passiva, chegando a um fundo tão fraco que não consegue produzir mais nada”. (Proclo: Uma Introdução, Radek Chlup).
Cada nível nesta procissão diminui um pouco mais de sua origem perfeita, e a “matéria” é o ponto mais baixo. Recusar-se do Bem é, para os neoplatônicos, recusar-se do Uno: é aumentar sua complexidade e restringir sua individualidade.
Duas coisas se seguem a partir do que precede que são relevantes para a teodicéia:
Os deuses não “escolhem” criar a realidade, como se houvesse uma dualidade de opções diante deles: ela brota deles e de sua bondade superabundante. Como tal, o mal não é algo que os deuses simplesmente optam por não impedir: ele de alguma forma surge da realidade que emana deles. Mas por que?
Em última análise, não há uma única causa do mal, mas o mal surge inevitavelmente porque os seres ficam aquém de suas naturezas. Este fracasso é, por sua vez, inevitável, porque eles estão no final da procissão do ser e, portanto, entre as mais complexas entidades, unificando assim dentro de si um número de partes que se esforçam por fins diferentes. Perseguir esses fins diferentes é apenas o conflito, e desdobra os males físicos e morais.”

“Discutimos isso antes, e acho que posso explicar melhor minha posição. Para você a questão é como poderia haver mais de um Deus, mas para mim, a questão é exatamente o oposto. A idéia aqui é que não existe tal coisa como o monoteísmo.
O “Monoteísmo” afirma que “há apenas um Deus”, reivindicação essa que é entendida para contradizer o politeísmo. Mas, não há maneira desta proposição contradizer o politeísmo.
Se isso significa que “Deus” é uma espécie de entidade que tem apenas uma instância, então ela deixa de ser uma proposição teísta, muito menos uma que contradiga o politeísmo, porque o que é deidade não instancia nada. Mas, se não significa que “Deus” é uma espécie de entidade, deve significar que “Deus” é uma divindade particular. No entanto, nesse caso, a afirmação de que “há apenas um Deus” significa pouco mais do que “há apenas um [YHWH, Poseidon, Odin, Zeus, etc.]”, e isso de modo algum contradiz o politeísmo.
Como é amplamente entendido então, não existe tal coisa como o monoteísmo. Em vez disso, é uma posição não teísta que trata Deus como um tipo de entidade ou é uma posição que é trivialmente verdadeira no politeísmo que trata Deus como uma divindade em particular.”

“O real e o imaginário têm algo em comum: ambos têm a determinação de ser uma coisa em vez de outra; uma identidade. É como somos capazes de conceber e falar sobre eles.
Mas, se o real e o imaginário têm identidade em comum, então deve haver mais no que torna uma coisa real do que sua identidade.
Em outras palavras, há uma diferença entre o que faz uma coisa ser (seu princípio de existência) e o que faz uma coisa ser o que quer que seja ou quem quer que seja (seu princípio de identidade).
Assim, o que faz uma coisa ser um quark não é que ele existe, senão tudo que existe seria um quark!
Para colocar isso em uma fórmula de tipos: um princípio de existência + um princípio de identidade = um ser real.
Nesse sentido, os “seres reais” referem-se apenas a compostos ou unidades de princípios de existência e identidade. Mas, os deuses não são unidades de princípios, são unidades (ou “hénadas” como dizem os platonistas). Então, sua existência e identidades não são distintas, como são para “seres reais”: na realidade, eles são um e o mesmo.”

“Eu acho que o argumento leibniziano precisa de algum retrabalho ou esclarecimento, pelo menos, como no que diz respeito à questão de saber o que condiciona o ato contingente de Deus para causar o ser contingente. Mas, o que me impressionou desta vez ao ler é que, concedendo todas as suas premissas, o argumento mostra, no máximo, que há um Deus que faz todas as coisas, na medida em que são contingentes. Não mostra que há um Deus que causa todas as coisas em todos os aspectos. Por exemplo, este Deus pode causar os seres humanos na medida em que são contingentes, mas não os causa na medida em que são humanos. Eu acho que os outros argumentos sofrem da presunção não demonstrada de monoteísmo também, especialmente o argumento da experiência religiosa.”

“Cada Deus é a causa primária de todas as coisas, somente a seu próprio modo. Assim, por exemplo, há o Deus que causa primariamente todas as coisas na medida em que vêm a ser, ou mudar. Tradicionalmente, ele tem sido conhecido como Poseidon. A esfera de atividade de Poseidon é muito mais ampla do que se pensa popularmente, mas é porque ela engloba a mudança por si mesma que se pensa incluir, no fundo e como imagem, o elemento sempre em mudança da água. Da mesma forma, o Deus que Leibniz defende é a causa primária de todas as coisas, na medida em que são contingentes, etc.”

“Os politeístas clássicos descrevem a “divindade”, pelo menos em parte, através do conceito de “henadicidade”: ser Deus é ser henádico, é ser uma unidade, entendendo que “Deusidade” não é uma mônada que um indivíduo tem, seja exclusivamente ou em comum com os outros, e é aqui que o monoteísmo acaba por ser uma confusão sobre este modelo: quando se diz que há apenas um Deus, ele trata a “Divindade” monadicamente ou como algo que apenas um indivíduo tem. Fazendo isso, o monoteísmo deixa de falar sobre o que é verdadeiramente divino ou henádico. Mas, pode-se protestar, não podem os monoteístas fazer apenas o que os politeístas clássicos fazem e não tratar a “divindade” de forma monádica, mas ao invés disso se referir a uma unidade em sua perfeitamente peculiar Individualidade? A resposta é que, naturalmente, eles poderiam! Mas, então, a sua alegação de que há apenas um Deus é uma afirmação que seria trivialmente verdadeira à respeito de todos os Deuses, e não iria contradizer o politeísmo.”