Do estoicismo antigo ao moderno — Parte II

Autor: Massimo Pigliucci
Tradutor: Felipe Couto

Como parte da minha exploração do estoicismo — de que esse blog é essencialmente meu diário público — tenho tido vontade de pensar sobre como o estoicismo moderno se apresenta. Afinal de contas, a versão antiga deixou de ser uma filosofia viva há cerca de 18 séculos, e muito tem acontecido tanto na filosofia quanto na ciência nesse meio tempo. Uma atualização se faz necessária há muito tempo (uma tentativa de atualização foi feita, e desfrutou um breve período de interesse, durante a Renascença).

Na parte I desse ensaio, apresentei três melhorias importantes do século XXI sobre o estoicismo antigo, derivadas principalmente da obra de Bill Irvine e Larry Becker, sobre a dicotomia do controle, virtude e natureza. Nessa segunda e última parte, desejo explorar três questões mais importantes: como pensar as emoções, a questão dos indiferentes preferidos e no Logos como princípio racional universal.

Na última vez apresentei um infográfico parcial para ajudar na compreensão e referência da discussão.  Deixe-me agora reproduzir a versão completa do diagrama (novamente, a figura no meio representa a humanidade em geral):

Para o quarto tópico, então: as emoções. Como expliquei detalhadamente recentemente, os estoicos não estavam defendendo uma vida sem emoção, mas sim a realização do que eles chamavam de apatheia, um senso de equanimidade e tranquilidade mental. A receita para isso foi retirar o “assentimento” das emoções negativas, enquanto ao mesmo tempo cultivando as positivas.

Como expliquei anteriormente, os estoicos mantinham um conceito de “emoções” (mais corretamente traduzido pelo termo “paixão”) não diferente daquele atualmente aceito pelos cientistas cognitivos: como o neurocientista Joseph Ledoux aponta, quando cientistas falam sobre, digamos, medo, eles estão se referindo ao sistema neutral evoluído não consciente, presumivelmente adaptativo, que nos permite perceber ameaças e reagir a elas. A resposta clássica de luta ou fuga é um exemplo óbvio, e a maquinaria neural que a torna possível está localizada na amígdala. A amígdala, então, cria as bases do que chamamos de emoção do medo. Mas emoções, no sentido estoico e neurocientifico, são melhores entendidas como “sentimentos conscientes cognitivamente reunidos”, que significa que são resultados de uma construção ativa e consciente da mente humana. Essa construção toma lugar a partir de uma série de blocos de construção, apenas um dos quais é o não-consciente, baseado na amígdala, mecanismo de detecção de ameaças e reações. Os blocos adicionais são derivados pelo nosso entendimento do contexto no qual nós experimentamos a reação, incluindo o contexto social, bem como de nossos julgamentos passados de situações similares, nossas expectativas deles e assim por diante. Em outras palavras: a deliberação consciente que chega a um julgamento, o uso humano do que Marco Aurélio chamou de faculdade dominante.

Tudo isso é bom, e concordo com os estoicos antigos que as emoções negativas como definidas por eles (por exemplo, medo devido às expectativas irracionais de algo ruim ou prejudicial) precisam ser “removidas” com consentimento, algo que a prática estoica (e a terapia comportamental cognitiva moderna) é projetada para fazer. Mas creio que as emoções positivas estoicas são um pouco estritamente construídas: elas incluem somente aspectos contemplativos da virtude, como “discrição”, a versão racional do vício, ou o “querer”, o desejo racional da virtude. Isso é simplesmente muito restrito para dar conta de uma vida humana verdadeira eudaimônica.

Assim, minha proposta no diagrama é expandir o sistema estoico de emoções que se preocupam com o exercício da virtude para emoções que são mais amplamente relacionadas com essas necessidades humanas. Isso, creio eu, é um desvio bastante importante do estoicismo antigo e não tenho conhecimento de nenhum autor moderno que o proponha (embora, é claro, eu posso ter deixado passar).

O que isso significa, por exemplo, é que o amor de seu cônjuge, seus filhos e seus amigos, ou uma paixão por justiça social, ou o sentimento de admiração pela beleza do universo, ou arte humana, são emoções positivas que a eudaimonia deve cultivar, mesmo que diretamente não afetem a virtude. Então, novamente, acredito que indiretamente tudo que fazemos afeta a virtude, entendida como excelência do caráter. Uma outra maneira de colocar isso é que penso que um ser humano que não ama seu amigo e família, que não se preocupa com justiça social, e que não aprecia a arte e beleza, não terá excelência, falhando em atingir areté no sentido mais amplo possível para o homo sapiens.

Em seguida: os indiferentes. No estoicismo antigo, eles incluem tudo que não seja diretamente relacionado com a virtude e, dessa forma, que não é bom ou mau, mas podem ainda ser razoavelmente perseguidos ou evitados, como respectivamente: saúde, educação e riqueza (desejados) vs doença, ignorância e pobreza (indesejados).

Agora, os estoicos antigos discordavam nisso (por exemplo, compare Sêneca com Epiteto), mas vários deles pensavam que os indiferentes são desejáveis ou não em proporção a como eles permitem a busca da virtude, e por nenhuma outra razão.

Novamente, isso me parece uma restrição desnecessária à eudaimonia, e que pode ser relaxada de uma maneira similar ao que sugeri às emoções supracitadas, sem risco de tornar o estoicismo em um epicurismo ou peripatetismo. Minha proposta é dizer que os indiferentes podem ser preferidos, na medida em que tal preferência não interfere na virtude (ao contrário, facilitando a virtude). Isso mantém o preceito estoico fundamental de que a virtude (novamente, entendida como excelência moral do caráter) é o único bem intrínseco, ao mesmo tempo que permite o cultivo “neutro” de outras atividades.

(Como um dos meus leitores — timbartik — recentemente sugeriu, de uma perspectiva estoica a virtude pode ser adequadamente posicionada por aquilo que os economistas chamam de ordenação lexicográfica. Eis como ele disse: “Uma ordenação lexicográfica é uma ordenação, como a ordem alfabética. Em tal ordenação, o lugar da primeira letra vai dominar todas as letras subsequente na determinação da ordem. No entanto, mantendo a primeira letra constante, as letras subsequentes também são importantes. O estoicismo está dizendo que a virtude é a primeira letra, e que os outros bens coletivos determinam o valor da segunda letra. Assim, alguém deve sempre preferir o estado da vida que maximiza a virtude; mantenho a virtude constante, alguém pode também preferir logicamente estados de vida que aumentam outros bens. Ordenações lexicográficas aparecem na economia porque se verifica que, se as preferências do consumidos são lexicográficas, elas não podem ser representadas por uma função de utilidade que atribuir valor a um vetor de bens e serviços, porque as preferências lexicográficas não permitem qualquer compensação entre os bens que estão ordenados lexicograficamente”. Acredito que isso captura exatamente o que estou tentando dizer aqui.)

Por exemplo, digamos que eu goste de ouvir jazz (o que de fato gosto). Isso é obviamente um indiferente, mas sob a interpretação estrita antiga é difícil conectar de qualquer maneira à virtude. De fato, falando estritamente é um “prazer” e, portanto, mais pertinente ao domínio epicurista.

Mas penso que uma parte significativa da vida humana é feita de tais experiências (nesse caso, a experiência estética da música), que podem ser cultivadas de uma maneira virtuosa, mesmo que não possibilitem diretamente a própria virtude. Além disso, nem todas experiências como essas tão igualmente boas ou defensáveis. Acho que um bom argumento pode ser feito de que, por exemplo, televisão ruim ou assistir pornografia não é bom para o caráter de alguém, e deveria, dessa forma, contar como um indiferente indesejado. Mas gozar da boa arte, da boa música, boa literatura, e assim por diante — eu mantenho — contribui indiretamente na formação de um caráter humano excelente, novamente porque estou usando uma definição expandida do conceito.

(Eu estou deixando de fora o que constitui “boa” arte, música, literatura, etc. Isso é uma discussão diferente que não altera meu ponto principal).

Assim, desde que a atividade em questão seja amplamente positiva, e, claro, enquanto ela for buscada sem interferência ou comprometimento da virtude de alguém, ela deve ser aceitável para um estoico moderno.

Finalmente, a grande questão da teleologia. Aqui não há dúvida de que os estoicos antigos adotavam uma visão teleológica do cosmos, onde o Logos era entendido como um princípio racional vitalista que permeia o universo. É por isso que Marco, por exemplo, pode implementar a analogia das partes do corpo a fim de explicar o porquê devemos aceitar as coisas ruins que nos acontecem. Digamos que você é o pé de um corpo e por causa de um acidente desenvolve uma gangrena. Faz sentido, do ponto de vista do corpo todo, te cortar fora, apesar de você, enquanto pé, não estar feliz com isso. Consequentemente, os estoicos obtiveram um bom grau de consolo por fazer parte de um universo interconectado ordenado de maneira racional. Além disso, eles também aceitaram um princípio universal de causa e efeito que teve importantes consequências metafísicas, incluindo fisicalismo e determinismo (da qual derivaram a visão compatibilidade de livre-arbítrio).

Como cientista e filósofo moderno, aceito o fisicalismo e o determinismo, mas rejeito a antiga visão teleológica estoica do cosmos. Como já escrevi aqui, até mesmo alguns estoicos antigos — como Marco — reconheceram que seus preceitos éticos não seriam afetados caso “providência ou átomos” fossem o princípio governante do universo, mas ainda assim, isso faz diferença na maneira de abordas as coisas.

Também sustentei que uma das coisas que me atrai para o estoicismo é que ele realmente pode ser uma “grande tenda” de perspectiva metafísica e ideológica, o que me leva a propor a seguinte atualização sobre o Logos: além de aceitar a causa e efeito universal, sugiro que o estoico moderno pode ser neutro sobre a questão teleológica. Ele pode ficar com a visão antiga do universo como um organismo que segue o princípio racional da organização (e, portanto, falar de Providência = Deus = Natureza) ou pode dizer que o universo pode ser entendido racionalmente (caso contrário, não haveria a ciência) e viver em conformidade, sem comprometer-se a uma posição que está em desacordo com as melhores evidências disponíveis.

Para recapitular, então, o meu sistema estoico atualizado consistiria em:

  1. A realização da tricotomia de controle, levando à internalização de objetivos.
  2. A virtude concebida como a maximização ética da agência.
  3. Um mandato para “seguir os fatos” sobre a natureza do universo em geral e natureza humana em particular.
  4. Uma concepção expandida das emoções positivas, para incluir aquelas que estão relacionadas às necessidades fundamentais humanas.
  5. Uma busca expandida de indiferentes preferidos, para incluir aquilo que só indiretamente se relaciona com a virtude, entendida como excelência de caráter.
  6. Uma instância neutra sobre a metafísica fundamental do universo, com o Logos sendo interpretado ou classicamente, como um princípio ordenador providencial, ou maior conformidade com a ciência moderna, como a ideia de que o universo pode ser entendido e vivido racionalmente.