Do estoicismo antigo ao moderno — Parte I

Autor: Massimo Pigliucci
Tradutor: Felipe Couto

Tenho estudado o estoicismo intensivamente por cerca de um ano e meio agora, e esse ano estou tentando resolver as coisas devotando meu ano sabático a ele, um projeto que culminará na escrita de “How To Be A Stoic” (o livro), e oferecendo um curso na City College sobre estoicismo antigo vs moderno.

O que me leva ao tópico desse post. Estive pensando muito sobre o projeto de modernização do estoicismo e aqui eu gostaria de apresentar minhas sugestões preliminares de uma forma um pouco mais sistemática do que tenho feito.

A ideia básica é que o estoicismo foi uma filosofia viva por cinco séculos, mas não foi nos últimos 1800 anos ou mais. Isso contrasta com a contraparte oriental do estoicismo — como cheguei a compreender — o Budismo, que se desenvolveu continuamente por dois milênios e meio, começando 2-3 séculos antes do estoicismo. Faz perfeito sentido, assim sendo, questionar de que forma o estoicismo moderno se apresenta quando se leva em conta o progresso intermediário em ética, ciência natural (parte da “física” estoica) e ciência cognitiva (parte da “lógica” estoica).

O apresentado abaixo é apenas um esboço preliminar, acompanhado do que espero que seja um infográfico útil. O projeto completo exigirá muito mais tempo, e pode (ou não) se desenvolver em um futuro livro.

Meu pensamento sobre isso foi influenciado por todos os autores modernos que li até agora, incluindo os contribuintes para o excelente “Cambridge Companion to the Stoics”, Bill Irvine, Don Robertson e John Sellars, entre outros. Mas deve sobretudo ao esforço muito rigoroso de Larry Becker.

Não é que eu necessariamente concorde com Becker em todos os pontos, nem que eu pense que sua palavra será a última sobre o assunto. Pelo contrário, o seu “A New Stoicism” é um ponto de partida maravilhoso para uma viagem séria, mas longe do destino final (se é que haverá um).

No entanto, algumas das ideias aqui apresentadas são adaptadas do Becker, e eu, portanto, devo-lhe uma especial dívida de gratidão. Enquanto escrevo isso, estou programado a visitar Virginia, onde ele se aposentou de seu ensino acadêmico, e passar o dia com ele entrevistando-o sobre o tópico do estoicismo moderno. Fique atento para saber mais sobre isso em breve.

Tendo resolvido as preliminares acima, deixe-me chegar ao cerne da questão. Não é possível aqui, nem necessariamente desejável, fornecer uma atualização ponto a ponto de todo o sistema estoico, da melhor maneira que puder ser reconstruída através de fontes existentes para os escritos antigos. Então decidi focar em seis pontos que penso que representam os aspectos mais importantes do estoicismo antigo e aqueles que precisam urgentemente de atualização para nossas sensibilidades modernas, se quisermos que o estoicismo contemporâneo floresça.

Aqui está o infográfico que espero ser útil para acompanhar o que estou prestes a dizer, bem como para fornecer um lembrete útil de discussões futuras (o corpo no meio simboliza a humanidade em geral — note que o diagrama é parcial, os três tópicos restantes, simbolizados pelas duas setas, serão discutidos na parte II):

A coluna da esquerda resume, com precisão penso eu, seis (bem, apenas três, nesta versão parcial) doutrinas essenciais do estoicismo antigo. A coluna da direita as reafirma e as atualiza, de acordo com meu (e de Becker e outros) pensamento.

Tomemos um por vez, então. Primeiro: a famosa dicotomia de controle. Como Epiteto coloca no início do Enchiridion, algumas coisas estão sob nosso controle, outras coisas não estão sob nosso controle. Isso é de importância prática crucial, porque as consequências de internalizar tal aparentemente trivial noção é que alguém pode, dessa forma, focar em ter sua eudaimonia dependente das coisas sob seu controle, invés daquelas que não estão.

Mas o que está e não está sob nosso controle? Para os estoicos antigos, nossos estados mentais conscientes estão (crucialmente, os inconscientes não). Todo o mais, os chamados “externos”, não estão sob nosso controle. É por isso que Marco insistiu tanto em cultivar sua “faculdade governante”: está em nosso poder dar ou retirar o assentimento das “impressões”, isso é, do que nossa mente inconsciente nos apresenta como uma forma de perceber o mundo.

Há dois problemas com a versão antiga, porém, que precisam ser corrigidos por qualquer versão moderna do estoicismo. Para começar, a ciência cognitiva contemporânea nos ensina que os estoicos eram um pouco otimistas sobre o que está sob nosso controle, mentalmente falando. Nossos pensamentos conscientes e deliberação se mostraram ser muito mais influenciados por, e intimamente entrelaçados com nossos estados inconscientes do que eles acreditavam. Certamente não vou para o que chamo de hype da “ilusão”, isso é, aquele subgrupo de cientistas modernos que negam a existência da consciência, individualidade, etc. Esses são importantes fenômenos mentais e são reais. Uma maneira melhor de pensar sobre eles, em vez disso, é de acordo com os traços da mentalidade “sistema 1 vs sistema 2” de Daniel Kahnman (isso é, inconsciente, rápido vs consciente, lento), apoiada também pelo fato anatômico de que as funções executivas (o que um cientista moderno chamaria de “faculdade governante”) são fisicamente localizadas nos lobos frontais e pré-frontais, que por sua vez são anatomicamente distintos e profundamente interconectados com o sistema límbico, onde nossas respostas emocionais e atitudes motivacionais se originam.

O segundo problema é que é bastante óbvio que uma melhor maneira de descrever as coisas é por uma tricotomia, não uma dicotomia, uma vez que algumas coisas externas estão sob nosso controle parcial. Os próprios estoicos reconheceram isso, é claro. Pense em seu famoso exemplo do arqueiro que tenta atingir um alvo: o resultado final do tiro não está sob o controle dele, porque o alvo pode estar se movendo ou uma rajada de vento pode atrapalhar. O que está sob seu controle é fazer o seu melhor para se preparar para o tiro. Mas isso, obviamente, significa que ele tem alguma influência sobre o resultado final, isso é, em mais do que apenas seus pensamentos. É por isso que Cicero, no livro III do De Finibus, onde ele apresenta a parábola do arqueiro, tem Catão concluindo: “O homem nesta ilustração teria de fazer tudo para mirar corretamente, mas, embora ele fizesse tudo para atingir o seu propósito, o seu “fim último”, por assim dizer, seria o que corresponderia ao que que chamamos Bem Principal na conduta da vida, ao passo que efetivamente atingir o marco seria na nossa expressão “ser escolhido”, mas não “ser desejado”.

Ser escolhido, mas não ser desejado. Acho esse pensamento muito bonito e é por isso que sigo Irvine aqui, que sugeriu que o pensamento estoico moderno deveria reconhecer a tricotomia de controle e passar a internalizar seus objetivos: você não espera conseguir uma promoção, você trabalha no seu melhor para merecer uma, e se você consegue ou não, não está (inteiramente) em seu controle; você não deseja que seu relacionamento dure a vida inteira, você trabalha no seu melhor para ser a melhor companhia que puder, e se o relacionamento de fato durará toda a sua vida, não está (inteiramente) sob seu controle. Em todos casos, você aceita o resultado com equanimidade, sabendo que você fez tudo que pode para atingir o final “escolhido” mas não desejado.

Segundo: virtude, ou — como assinalei recentemente — aretê, que significa mais precisamente excelência de caráter.

A posição do estoico antigo nisso é que a virtude é o único bem (embora Catão, no De Finibus supracitado, mais precisamente define como bem principal). Aqui os estoicos acompanharam Sócrates mais de perto, que no Eutidemo argumentou que qualquer outra habilidade é útil para outra coisa, mas apenas a virtude é boa em si mesma, porque a pessoa virtuosa então sabe como lidar com toda situação que a vida pode apresentar para ela. (Estritamente falando, Sócrates está falando sobre sabedoria, mas os estoicos subscreveram uma unidade dos modelos de virtude, então os dois termos são intercambiáveis para os propósitos presentes).

A proposta de atualização aqui é diretamente do Becker, com uma ressalva. Ele sugere que, em tempos modernos, podemos pensar na virtude como a maximização da agência, algo que todos os seres humanos desejam. (Para ser preciso, Becker diz que todos os agentes suficientemente parecidos com ele fazem, tomando ele como um ser humano típico. É bastante possível que certos humanos, ou seres conscientes não humanos, se existem, podem não desejar maximizar sua agência — caso em que o estoicismo moderno simplesmente não apelará a eles).

A ressalva é que estou falando de agência moralmente conduzida, ou eticamente informada, pois de outra forma poderemos contemplar o caso de um psicopata que deseja maximizar sua agência, incluindo sua habilidade de matar ou machucar outros. Isso certamente não seria estoico e Becker percebe isso. Contudo, seu argumento de conectar a maximização da agência com ética é um pouco complicado e não totalmente convincente, em minha opinião.

A maneira que estou conectando aqui é bastante direta e seria familiar a um estoico antigo: estou simplesmente aceitando a posição estoica de que seres humanos são animais sociais capazes de raciocinar, ao contrário de “animais racionais” à la Aristóteles: claramente, em muitas situações, nós não nos comportamentos racionalmente, mas certamente está a nosso alcance fazer isso. Considero, então, axiomático para um sistema estoico moderno que a melhor maneira de viver é usar a razão a fim de ajudar a sociedade (e, portanto, a nós mesmos) a florescer. Como Sêneca dizia: “Adhibe rationem difficultatibus” (Traga a mente para suportar seus problemas – De Tranquillitate Animi, X.4). E a melhor maneira de viver socialmente definitivamente não inclui psicopatia ou, de fato, nenhum padrão comportamental que é prejudicial ao bem-estar e eudaimonia de outros agentes, ceteris paribus.

Em terceiro lugar, a natureza. Os antigos estoicos eram famosos pelo lema de sua escola “Siga a natureza”, pelo que eles entendiam significar tanto a natureza do cosmos como a natureza humana. É por isso que “física” é um dos três campos de investigação do estoicismo (o segundo sendo “lógica”, ambos profundamente conectadas com o campo central, a “ética”). A fim de viver eudaimonicamente, que é o objetivo da ética, é preciso entender como o universo funciona, assim como de que forma os seres humanos são constituídos. Sem esse entendimento, se está fadado a tentar a viver por meio da fantasia, tentando fazer coisas que são ou impossíveis ou inúteis.

Agora, “viver de acordo com a natureza” não significa fazer um falacioso apelo à natureza, isso é, pensar que o que é natural é ipso facto bom. Os estoicos perceberam tão bem quanto qualquer um que comer cogumelos venenosos, digamos, é definitivamente ruim para seres humanos, mesmo que cogumelos sejam certamente “naturais”.

O que eles queriam dizer era um pouco mais sofisticado: em termos do cosmos em geral, não existe uma boa vida que ignora o Logos (mais sobre isso na parte II), o princípio racional que organiza o universo ou que tenta alardear o princípio de causa e efeito universal em um universo materialista (ambos os quais eram princípios da metafísica estoica). Quanto à natureza humana, como mencionei acima, o passo crucial é o reconhecimento de que vivemos melhor quando estendemos a razão para favorecer a função de nossas sociedades.

Viver de acordo com a natureza pode ser utilmente atualizado — novamente, como Becker fez — para viver de acordo com os fatos sobre o cosmos e a humanidade. Eis como ele coloca: “Seguir a natureza significa seguir fatos. Significa obter os fatos sobre o mundo físico e social que habitamos e os fatos sobre nossa situação nele — nossos próprios poderes, relacionamentos, limitações, possibilidades, motivos, intenções e esforços, antes de deliberarmos sobre assuntos normativos”.

Essa é uma maneira poderosa de superar a famosa lacuna do “ser/dever ser” (embora note que não reduz a ética à ciência social) e fazer justiça ao estoicismo como uma filosofia naturalista. Mas, no século XXI, o fazemos levando em consideração o que a ciência moderna — e especialmente a física, a biologia e as ciências cognitivas — nos diz sobre a natureza do mundo e da humanidade. Isso significa abandonar um número específico de noções que os antigos estoicos possuíam, mas isso não é problemático (estoicismo é uma filosofia, não uma religião, não há textos sagrados ou doutrinas imutáveis) como de fato não é algo que os próprios estoicos já não estivessem fazendo em seu tempo.

Na parte II deste ensaio, discutirei três conceitos adicionais do estoicismo antigo e minhas atualizações propostas: como pensar as emoções, a questão dos indiferentes preferidos e o Logos como princípio racional universal.

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